O Modelo Cynefin

Os métodos ágeis parecem uma moda que chegou para ficar, então isso significa o fim dos projetos que usam os modelos chamados “tradicionais”? E a resposta é um grande e retumbante Não! Os métodos “tradicionais” vão e continuarão existindo por um longo tempo. E por quê? Porque o uso de um método ou outro varia de acordo com o tipo do projeto. Métodos ágeis se adaptam muito bem a projetos complexos. Já os métodos tradicionais a projetos complicados. Mas como saber se um projeto é complexo ou complicado? E ainda, como diferenciar complicado de complexo?

Neste artigo vamos abordar um modelo que ajuda a explicar essas diferenças: o modelo Cynefin (se pronuncia, pasmem, cunévin).

O modelo foi baseado em conceitos de antropologia, neurociência e sistemas complexos adaptativos e com ele podemos classificar os ambientes nos quais vivemos e trabalhamos em quatro categorias: Óbvio, Complicado, Complexo e Caótico.

O ambiente Óbvio (simples) e a preparação de fritas

Os ambientes simples apresentam contextos fáceis de entender. Neste tipo de ambiente não há complicações e sabemos exatamente o que deve ser feito. Aqui, neste lugar, podemos aplicar as “melhores práticas”. Há sempre um modo melhor de fazermos algo conhecido. A criatividade não tem muito lugar por aqui, muito menos a liberdade, pois já se sabe que a melhor maneira de se fazer uma atividade já está definida, e “não adianta inventar”. Não há muitas surpresas, e nem mesmo riscos significantes. Tudo é muito fácil de mentalizar e definir. Quando vemos o atendente da rede de fast-food preparando batatas fritas, podemos vê-lo envolto em um ambiente simples. Não há variações. A temperatura do óleo, a quantidade de batatas e o tempo de imersão no óleo, são pré determinados. Quando alguém faz um pedido de fritas, o atendente sabe exatamente o que fazer. É simples e não há complexidade. Tudo é óbvio.

O ambiente Complicado, a construção de uma ponte e o Guia PMBOK®

Neste ambiente, as complicações começam a aparecer. Nos ambientes complicados, riscos significantes e que devem ser previstos surgem para serem avaliados e tratados. Mudanças em como as coisas devem ser feitas podem ocorrer com mais frequência no meio do caminho. Nos ambientes complicados, deve-se fazer um planejamento prévio com o fim de evitar fracassos. Uma equipe trabalhando num projeto de construção de uma ponte é um bom exemplo de algo que pode estar facilmente envolto no ambiente complicado. Projetos de engenharia civil cabem muito bem nessa categoria de ambiente. A criatividade do time tem o seu lugar, mas ainda limitada pelos padrões de engenharia e as leis da física. Afinal, até hoje ninguém conseguiu burlar a lei da gravidade, não é mesmo?

Então, neste tipo de ambiente, há um bom grau de previsibilidade quando planejamos o nosso projeto. Mas como mudanças acontecem, devemos realizar a gestão dessas mudanças, como também  dos riscos. Podemos falar que em ambientes complicados temos as “boas práticas”, pois nem sempre há o “melhor jeito” de fazer algo. Esta otimização do “melhor”, que está presente no ambiente simples, é afrouxada devido às variáveis do projeto, mudanças possíveis e o teor aceitável de imprevisibilidade e riscos presente no ambiente. O “melhor” é muito rígido aqui, e o “bom” dá um pouco mais de liberdade e variação para atuarmos

Nem sempre há um plano exatamente prescrito da melhor forma de se construir uma ponte, pois há variáveis a se considerar: terreno, clima, materiais disponíveis, quanto peso e tremores a construção deve suportar etc. Porém, existem “boas práticas” para atingirmos nosso objetivo e neste ambiente, as práticas do Guia PMBOK® se encaixam perfeitamente. Assim, o método tradicional de gerenciamento de projetos se adequa muito bem a projetos considerados complicados.

O ambiente Complexo, o desenvolvimento de software e os métodos ágeis

Em ambientes complexos a imprevisibilidade ganha espaço. Aqui, sabemos muito pouco o que vai acontecer. A definição do que deve ser feito muda a todo momento. As pessoas planejam algo, mas depois de poucas semanas, o planejamento efetuado é descartado, pois tudo mudou. Existem muitos riscos e as mudanças passam a ser consideradas como naturais.

No ambiente complicado, tínhamos um plano a seguir e um escopo fixo, ou pelo menos bem próximo disso. No exemplo da ponte, ao final do projeto ainda teremos uma ponte com características bem próximas ao inicialmente planejado, mesmo que várias mudanças ocorram.

Já em um ambiente complexo, a gestão de mudanças fica mais difícil, pois o escopo varia com muito mais frequência. E o melhor exemplo de um ambiente complexo é um time trabalhando num projeto de desenvolvimento de software. Softwares sanam desejos do usuário, e desejos mudam com facilidade. É difícil definirmos o escopo, e ele se modifica a todo momento, pois muitas vezes, o que se deseja está no mundo das ideias e quando elas se concretizam, descobre-se que não era bem isso que se queria.

Aqui as boas práticas nem sempre se aplicam, porque muitas vezes o que se vai desenvolver é novidade para o time. A criatividade e a liberdade ganham muito espaço, pois para solucionar problemas nunca antes enfrentados, devemos ter liberdade para inovar. O Scrum foi criado para atuar em ambientes complexos e se encaixa muito bem neles. E por quê? Porque ocorrem entregas em períodos curtos e com isso se obtém feedback rápido sobre se o que foi feito atende ao que o cliente deseja ou não. E se descobrirmos que o que foi entregue não vai servir, pouco trabalho se perdeu, e podemos replanejar a próxima iteração para atender às novas necessidades.

O ambiente Caótico e as flutuações do mercado financeiro

Neste ambiente, como já diz o nome, o caos tem sua vez. A criatividade atinge seu grau máximo, e não há padrões para nada. Não há melhores práticas, e nem mesmo boas práticas. Temos a prática pela prática, espontânea e livre. Fazer um plano, neste ambiente e mesmo que mínimo, além de não fazer sentido, é praticamente impossível.

O mercado de ações segue bem esse tipo. Por motivos imprevisíveis, a bolsa pode entrar em circuit breaker, ou seja, as oscilações para baixo são tão violentas, que ela precisa ser fechada antes que todos os investidores quebrem. E isso pode acontecer a qualquer dia e horário e por infinitas razões: desde a eleição de um novo presidente até um tsunami destruindo parte de uma usina nuclear do outro lado do planeta. Nunca se sabe o que irá acontecer no próximo minuto. Você pode até tentar planejar alguma coisa, mas esse planejamento pode vir abaixo a qualquer instante.

Projetos de produtos inovadores bem presentes em startups de inovação seguem esse modelo. É claro que esse tipo de projeto vai migrar um dia para o ambiente complexo, já que é impossível lançar um produto sem que se tenha o mínimo de previsibilidade em suas futuras versões. Caso contrário, é como se lançássemos um carro voador no primeiro release, e na segunda versão do produto, teríamos uma cafeteira movida a biocombustível.

Outra área do conhecimento humano que se enquadra bem neste tipo, é a relacionada às artes: imprevisibilidade ao máximo durante o desenvolvimento de algo e altos graus de criatividade.

Desordem: quando um ambiente na verdade é outro

A desordem é a área central do modelo Cynefin. Ela ocorre quando tratamos um sistema pensando que ele é de um certo tipo, quando na verdade é de outro.

Por exemplo, não podemos construir uma ponte da mesma forma que criamos uma obra de arte, ou seja, não podemos tratar um sistema complicado como se fosse um sistema caótico ou ainda complexo.

Da mesma forma não podemos usar processos rígidos na construção de um software, que por sua natureza necessitam de mais liberdade para seu desenvolvimento.

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